As mídias sociais e as manifestações

24-07-2018 - Jornal do Brasil Desde a Revolução Verde no Irã em 2009, os protestos em Wall Street, nos Estados Unidos em 2011 e as manifestações no Brasil em 2013 e 2018, sendo que esta última, tenha paralisado o país; vale a pena examinar o papel da influência das mídias sociais como ferramentas de ações políticas.

Em 2010, o conhecido escritor Malcolm Gladwell escreveu um artigo na revista New Yorker afirmando que, devido aos laços fracos dos ativistas das redes sociais, a tentativa de mudar a estrutura de poder através de Facebook e Twitter estaria fadada ao fracasso. Segundo Gladwell laços fracos não possuem estrutura para alterar organismos de poder estabelecidos. Além disso, ele argumenta que os movimentos através das redes sociais não possuem, também, linhas claras de autoridade que permitam estabelecer metas e atingir consenso.

Com pensamento divergente, o professor da Universidade de Nova York Clay Shirky argumenta que graças à Internet cada pessoa percebe que não está sozinha. E quando essas pessoas encontram umas com as outras, elas podem fazer maravilhas, até criar mundos online que reforçam suas visões desse mundo e que acabam sendo incorporadas ao ambiente social e político. A surpreendente eleição de Trump nos Estados Unidos e o fenômeno do Brexit no Reino Unido servem de ilustração para mostrar como as redes sociais mudaram o curso dos eventos.

Durante as recentes manifestações ocorridas no Brasil pôde ser observado a grande capacidade de articulação, mobilização e de engajamento das pessoas através das redes sociais. Por outro lado, constatou-se que apesar de entendimento dos líderes com as entidades governamentais, alguns movimentos persistiram. Percebe-se que não haviam linhas claras de comando, que os manifestantes não se sentiram representados pelas lideranças negociadoras e informaram que só iriam parar quando pudessem constatar que as suas demandas estivessem, de fato, sido implementadas. Portanto, pode-se deduzir que não haviam laços fortes entre os manifestantes e seus "representantes”.

Ficam, então, as seguintes perguntas: Quem está certo sobre a importância das mídias tecnológicas nas manifestações e protestos? Gladwell ao afirmar que os laços fracos de ligação entre as pessoas são um impedimento para se atingir os objetivos ou Shirky ao defender que as redes digitais permitem que grupos, de outra forma, jamais poderiam se organizar em relação à ação política efetiva?

Com milhões de pessoas grudadas no Facebook, WhattsApp, Instagram e outros serviços populares, os movimentos no Brasil se expandiram através de vídeos fazendo com que a mídia social se tornasse uma importante força política, cujos efeitos começam a ser sentidos. Ao permitir que as pessoas possam se comunicar livremente umas com as outras, essas mídias estão possibilitando a criação de organizações sociais surpreendentes entre grupos anteriormente marginalizados. Atualmente, são milhões de brasileiros conectados à Internet, e a maioria não está satisfeita com o “status quo”.

A disponibilidade das tecnologias na palma da mão pode influenciar ou até mesmo tumultuar as eleições de outubro deste ano. Experiência recente sinaliza que os responsáveis por políticas públicas ainda não conseguem prever os desdobramentos dos acontecimentos nem mesmo lidar com essa nova realidade. Munidos de novas ferramentas tecnológicas as pessoas expressam as suas angústias, insatisfações, e estão mais dispostas a seguirem líderes que abraçam as suas causas. É bastante clara, por exemplo, o descontentamento quanto a alta carga tributária, a falta de segurança, a baixa qualidade dos serviços públicos e os privilégios da classe política.

Para aqueles agarrados ao poder e que gostam de um mundo previsível, o fator mais aterrorizante do Facebook ou WhattsApp não é que estejam carregados de “fake news”, mas que deem capacidade a grupos de influenciarem decisões governamentais e poder real para mudarem o curso da história de uma maneira nunca antes imaginada

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